Os dias estão cada vez mais curtos ou é impressão minha? Agora aproveito as viagens para consegui colocar as leituras em dia já que o tempo de manta e sofá está cada vez mais escasso.
Uma viagem é sempre uma aventura não só pela viagem em si mas também pelas voltas e revoltas a que nos obrigam com voos atrasados e cancelados. Valha-nos esse tempo de espera que nos obriga sem querer a fugir à azafama das corridas e nos empurra para um banco onde temos simples e só que aguardar.
- "só consegue ligação daqui a três dias"
- "é melhor voar para Munique e alugar um carro para fazer o resto do caminho"
Numa dessas viagens abracei o "Pão de Açúcar" do Afonso Reis Cabral e devo dizer que acabei um voo em lágrimas. (Quem é que disse que os homens não choram? Bestas insensíveis).
A história da Gisberta é dura, crua e real. Transexual, sem abrigo, toxicodependente, crescida, criada e sofrida numa vida de discriminação e sofrimento e o sacaninha do Afonso Reis Cabral pega nisto de uma forma magnânima, na primeira pessoa leva-nos para dentro desta história pela mão e connosco constrói uma amizade com a Gi.
Com ele corremos as ruas do Porto, construímos amizades e passeamos pelo lado mais negro do ser humano.
A minha vénia ao Afonso por lembrar isto de uma forma tão crua e por nos recordar que temos um caminho gigante à frente pelo fim da discriminação e por condições de vida dignas para todos e para todas.
“Reconhecia nele, em dobro, a repulsa e o nojo que sentira ao encontra-la. Entretanto a minha aversão passara. Ter continuado a ajudá-la provava que afinal era mais homem do que rapaz, adulto em vez de criança, por oposição ao Nélson. E até por oposição ao Samuel, que conversava em paz com a Gi apenas por ainda não ter percebido que ela era um traveca igual aos que insultávamos em Santa Catarina.”